Transferência de Renda e Bolsa Família: Taxar os mais ricos em 1% aumentaria o PIB em 2,4% 

transferencia de renda

Um estudo inédito realizado pelo MADE (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo) sobre transferência de renda revelou que se as grandes fortunas fossem taxadas em 1%, o PIB brasileiro seria elevado em 2,4%.

O estudo, conduzido pela economista Laura Carvalho observou que a transferência de renda dos mais ricos para os mais pobres, através de políticas sociais, pode ter um grande impacto na recuperação da economia.

 

Transferência de renda: pobres consomem mais que os ricos, proporcionalmente à renda

O objetivo da pesquisa foi tentar compreender os efeitos que diferentes programas de redistribuição de renda podem ter sobre o Produto Interno Bruto (PIB).

Para isso, os pesquisadores analisaram os dados da POF do IBGE (Pesquisa de Orçamentos Familiares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes aos anos de 2017 e 2018. Os números mostraram que enquanto os 10% mais pobres consomem cerca de 87% da sua renda, os 1% mais ricos consomem apenas 24%.

Com esse dado, e utilizando o princípio multiplicador da transferência de renda, a análise identificou que cada R$100,00 transferidos dos 1% mais ricos para os 30% mais pobres, traria uma expansão na economia de R$106,70.

 

Transferência de renda para pagar auxílio emergencial

Se a transferência de renda fosse feita para pagar o auxílio emergencial, o impacto seria ainda maior.

“No caso do auxílio, o efeito multiplicador é maior pois o volume de recursos destinado a essa política foi muito elevado. Foi um programa emergencial, mas muito amplo, com pouco mais de 4% do PIB de 2020 destinado a essa política de transferência de renda”, explicou Laura Carvalho.

 

Transferência de renda para Bolsa Família

O estudo testou também uma política social que taxaria 1% dos mais ricos e, com esse recurso, garantiria R$125,00 para os mais pobres, todos os meses, em uma política de transferência de renda mais permanente, como é o caso do Bolsa Família.

A economista explicou que “quando você faz uma política assim, que altera a atual estrutura de transferências, expandindo o Bolsa Família, e ao mesmo tempo altera a atual estrutura de tributação, tornando ela mais progressiva, você muda a distribuição de renda na economia”. 

E os efeitos são ainda maiores uma vez que “como os estratos inferiores, que têm uma propensão a consumir mais, vão estar se apropriando de uma parcela maior da renda, isso altera o efeito multiplicador, ampliando esse efeito”.

Neste cenário, ao propiciar a transferência de renda de R$100,00 dos mais ricos para os mais pobres, a expansão na economia seria de R$ 109,00 e o impacto disso seria uma elevação de 2,4% do PIB, segundo estimam os pesquisadores.

A pesquisadora Laura Carvalho defende ainda um novo programa de transferência de renda, uma vez que, segundo ela “o Bolsa Família é insuficiente para funcionar como um protetor para um conjunto da população que tem renda que oscila muito e está sujeita a cair na pobreza extrema”.

Sua proposta baseia-se em um programa fiscalmente neutro, ou seja, que não gera nenhum gasto adicional para o governo, “para que ele seja pensado como uma solução sustentável, permanente, que não contribua para uma deterioração do Orçamento e que contribua para reduzir desigualdade e para recuperar a economia, melhorando o ritmo de crescimento a médio e longo prazo.”  

 

Como taxar os mais ricos?

Para taxar os mais ricos e melhorar a transferência de renda para os mais ricos, o estudo aponta alguns caminhos:

  • eliminar a isenção de tributação sobre lucros e dividendos do imposto de renda
  • eliminar as deduções com saúde e educação do imposto de renda dos mais ricos
  • criar uma nova faixa de tributação, superior aos 27,5% para os mais ricos

Essa proposta, porém, esbarra em um fator limitador que é o teto de gastos. O teto de gastos, da maneira como está estruturado, impede que o governo gaste mais do que gastou no ano anterior, corrigido pela inflação. A regra fala apenas da despesa e não da receita. Isso significa que, mesmo que o governo arrecade mais, ou seja, que ele tenha mais dinheiro, ele ainda estará condicionado a gastar dentro do limite do teto.

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